Revoltas da 1° República

 A Guerra de Canudos


Nas últimas décadas do século XIX, o autoritarismo e a negligência dos governantes da recém-instalada República brasileira contribuíram para o surgimento de diversos movimentos de contestação social. No sertão nordestino, a situação era ainda mais crítica devido às constantes secas, que tornavam a sobrevivência extremamente difícil para a população.

Nesse contexto, destacou-se a figura de Antônio Vicente Mendes Maciel, líder religioso que surgiu por volta de 1870. Natural de Quixeramobim, no Ceará, exerceu diferentes profissões na juventude, incluindo a de professor. Após problemas pessoais, abandonou sua vida anterior e passou a percorrer o sertão como beato, pregando mensagens religiosas e organizando mutirões para auxiliar a população, como a construção e reforma de igrejas e cemitérios. Com o tempo, reuniu um número significativo de seguidores.

Em 1893, Antônio Conselheiro e seus seguidores se estabeleceram no interior da Bahia, às margens do rio Vaza-Barris, em uma antiga fazenda chamada Canudos. Ali fundaram um povoado inicialmente conhecido como Belo Monte, que posteriormente passou a ser chamado de Canudos. A comunidade era formada majoritariamente por sertanejos pobres, que buscavam melhores condições de vida, fugindo da exploração dos coronéis e da falta de trabalho. No entanto, também havia pessoas de diferentes profissões, como comerciantes, artesãos, professores e ex-soldados.

Em Canudos, a população desenvolvia atividades agrícolas, como o cultivo de milho, feijão e batata, além da criação de animais. A produção local garantia a subsistência e possibilitava trocas comerciais com regiões próximas. A organização autônoma da comunidade, sua orientação religiosa baseada nas interpretações de Conselheiro e, principalmente, a recusa em pagar impostos à República foram vistas como ameaças pelas autoridades. Rapidamente, o arraial passou a ser acusado de abrigar monarquistas considerados perigosos.

Diante disso, o governo enviou diversas expedições militares para destruir Canudos. Nos combates, os sertanejos utilizavam estratégias de guerrilha, como emboscadas, e enfrentavam as tropas com armas simples. As três primeiras expedições foram derrotadas pelos moradores do arraial.

A imprensa da época intensificou a imagem negativa de Canudos, apresentando seus líderes — como Conselheiro, João Abade e Pajeú — como inimigos da República. Em resposta, o presidente Prudente de Morais autorizou o envio de uma quarta e mais poderosa expedição militar, composta por mais de seis mil soldados. Utilizando armamentos pesados, como canhões e dinamite, as tropas destruíram completamente o arraial.

Em 5 de outubro de 1897, Canudos foi devastada, suas casas incendiadas e grande parte da população massacrada. Antônio Conselheiro foi morto, e sua cabeça foi decapitada, marcando de forma trágica o fim de um dos mais importantes conflitos sociais da Primeira República

Revolta da Chibata 


No contexto da Primeira República, também ocorreram manifestações de resistência no interior da Marinha brasileira. Embora os navios fossem considerados modernos, o Código Disciplinar ainda preservava práticas herdadas do período escravista. Infrações leves podiam resultar em prisão na solitária por até três dias; reincidências levavam a seis dias de detenção; e faltas graves eram punidas com até 25 chibatadas.

Grande parte dos marinheiros era formada por homens negros e mestiços. Por isso, muitos historiadores interpretam a manutenção de castigos físicos como uma expressão de racismo institucional, sobretudo quando comparada à origem social dos oficiais, em geral pertencentes às elites brancas e historicamente ligadas à escravidão.

Em novembro de 1910, logo após a posse do presidente Hermes da Fonseca, o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes foi punido com 250 chibatadas — número muito superior ao permitido pelo regulamento. O castigo ocorreu diante de toda a tripulação e continuou mesmo após o marinheiro perder a consciência, o que gerou forte indignação entre os colegas.

A revolta eclodiu em seguida. Liderados por João Cândido Felisberto, os marinheiros tomaram o controle de importantes navios de guerra ancorados no Rio de Janeiro, como o Minas Gerais e o São Paulo. Apontando os canhões para a cidade, exigiram o fim dos castigos corporais, melhores salários e anistia para os envolvidos no movimento.

Sem condições de enfrentar a rebelião, o governo aceitou as exigências, prometendo abolir a chibata e conceder anistia. Os marinheiros, então, devolveram o controle dos navios. No entanto, posteriormente, o governo descumpriu o acordo: autorizou a expulsão de marinheiros considerados “indesejáveis” e ordenou a prisão dos líderes do movimento.

A repressão foi severa. Dezesseis marinheiros morreram na prisão da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro; outros foram executados ou enviados para trabalhos forçados na região amazônica. João Cândido Felisberto foi internado como doente mental.

Apesar da repressão, a luta dos marinheiros teve um impacto duradouro: os castigos corporais foram definitivamente abolidos na Marinha brasileira, marcando um importante avanço na luta por direitos e dignidade.

Revolta da Vacina 


Em 1902, o presidente Rodrigues Alves, representante das elites cafeeiras, assumiu o governo com o objetivo de modernizar o Rio de Janeiro, então capital federal. Para isso, encarregou o prefeito Pereira Passos de conduzir um amplo projeto de reformas urbanas.

Inspirado no modelo de Paris, o plano foi implementado de forma autoritária, sem a participação da população. Para abrir a Avenida Central (atual Rio Branco), diversas moradias populares foram demolidas. Sob o lema “Bota abaixo!”, funcionários da prefeitura destruíram quarteirões inteiros, desalojando cerca de 14 mil pessoas. Sem alternativa, muitos passaram a viver nas periferias ou nos morros, construindo habitações precárias.

Paralelamente, o médico sanitarista Oswaldo Cruz foi responsável por combater doenças como febre amarela, varíola e peste bubônica, que afetavam gravemente a cidade. Em 1904, foi aprovada a Lei da Vacina Obrigatória, que determinava a imunização contra a varíola para toda a população a partir de seis meses de idade. O descumprimento poderia resultar em punições, como multas e demissões.

A combinação entre as reformas urbanas autoritárias, o alto custo de vida e a imposição da vacinação obrigatória gerou grande insatisfação popular. Entre os dias 10 e 16 de novembro de 1904, a população saiu às ruas, dando início à chamada Revolta da Vacina. Armados com paus, pedras e barras de ferro, manifestantes enfrentaram as forças policiais, incendiaram bondes, destruíram trilhos e atacaram estabelecimentos comerciais. O Palácio do Catete, sede do governo, também foi cercado por manifestantes.

Diante da intensidade dos conflitos, o governo reagiu com violência, ordenando o bombardeio de áreas da cidade e suspendendo temporariamente a obrigatoriedade da vacina. A revolta foi reprimida, e muitos de seus participantes foram presos e enviados para o Acre, região recentemente incorporada ao território brasileiro. Embora políticos oposicionistas também tenham participado do movimento, não sofreram punições.


Guerra do Contestado 



Na região localizada entre os estados de Santa Catarina e Paraná — área disputada por ambos — ocorreu, no início do século XX, um importante movimento social envolvendo sertanejos pobres e profundamente religiosos.

Nesse período, a região vivia um cenário de grande tensão social. Os coronéis expandiam suas propriedades de criação de gado e produção de erva-mate, frequentemente tomando, à força, as terras de indígenas e posseiros. A situação se agravou quando o presidente Afonso Pena (1906–1910) contratou uma empresa norte-americana, a Brazil Railway Company, para construir um trecho da ferrovia que ligaria São Paulo ao Rio Grande do Sul. Como parte do pagamento, a empresa recebeu uma faixa de 15 quilômetros de terra de cada lado da estrada de ferro.

Em 1911, essa empresa criou uma subsidiária chamada Lumber, que prometia colonizar a região com imigrantes europeus. No entanto, o verdadeiro interesse era explorar a madeira nativa, especialmente o pinho e a imbuia. Para isso, a empresa utilizou homens armados para expulsar os moradores locais e instalou, em Três Barras (Santa Catarina), um grande complexo madeireiro.

Diante da expulsão, os sertanejos passaram a seguir o monge José Maria, organizando comunidades conhecidas como “vilas santas”. Essas populações resistiam à perda de suas terras, ao avanço do capitalismo no campo e à desvalorização de seus costumes e tradições. Assim como ocorreu em Canudos, foram acusadas pelas elites e pela imprensa de serem monarquistas fanáticos e inimigos da República.

O governo do Paraná enviou tropas para reprimir o movimento. Em um dos primeiros confrontos, morreram tanto o monge José Maria quanto o comandante das forças militares. Após sua morte, espalhou-se a crença de que o monge retornaria para instaurar a “lei da coroa do céu”, o que fortaleceu ainda mais o movimento e aumentou o número de seguidores.

Em resposta a novos conflitos — incluindo o incêndio da sede da empresa responsável pela expulsão dos sertanejos —, o presidente Hermes da Fonseca (1910–1914) enviou cerca de seis mil soldados, equipados com armamentos modernos, como metralhadoras, canhões e até apoio aéreo.

A repressão foi extremamente violenta. Em nome da ordem republicana e do progresso, as “vilas santas” foram destruídas, e muitos sertanejos foram mortos. O conflito chegou ao fim em 1916, quando Paraná e Santa Catarina estabeleceram um acordo definindo oficialmente os limites entre os dois estados.

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