Proclamação da República do Brasil
A Proclamação da República (1889): um processo histórico, não apenas um golpe
A Proclamação da República no Brasil ocorreu em 15 de novembro de 1889, no Rio de Janeiro, então capital do Império, sendo liderada por setores militares sob o comando do marechal Deodoro da Fonseca. No entanto, reduzi-la a um simples “golpe militar” é insuficiente: trata-se de um processo histórico complexo, marcado por tensões políticas, sociais e econômicas acumuladas ao longo das décadas finais do século XIX.
⚖️ Crise do Segundo Reinado
A partir da década de 1870, o Império de Dom Pedro II enfrentava uma crise estrutural, caracterizada pelo enfraquecimento de suas bases de sustentação:
1. Questão Militar
Após a Guerra do Paraguai, o Exército brasileiro ganhou maior prestígio e passou a reivindicar mais autonomia política. Oficiais influenciados pelo positivismo (especialmente as ideias de Auguste Comte) criticavam a monarquia, vista como atrasada.
Além disso, conflitos com o governo imperial — como punições a militares que se manifestavam politicamente — aumentaram o ressentimento da corporação.
2. Questão Religiosa
Na década de 1870, ocorreu um conflito entre a Igreja Católica e o Estado imperial. Bispos que puniram maçons foram presos por ordem do governo, o que abalou a aliança tradicional entre Igreja e monarquia.
3. Questão Abolicionista
A abolição da escravidão, formalizada pela Lei Áurea, provocou forte descontentamento entre os grandes proprietários rurais, especialmente do Sudeste.
Sem indenização, esses grupos romperam com o regime imperial — fato que, segundo Brasil: Uma Biografia, foi decisivo para o isolamento político da monarquia.
🌱 O crescimento do ideal republicano
O republicanismo no Brasil não surgiu em 1889; ele vinha sendo construído desde pelo menos 1870, com o lançamento do Manifesto Republicano.
Grupos republicanos defendiam:
-
Federalismo (maior autonomia das províncias)
-
Fim da monarquia hereditária
-
Modernização política inspirada nos EUA
Essas ideias ganharam força principalmente entre:
-
Militares
-
Profissionais liberais urbanos
-
Setores das elites agrárias do Sudeste
Contudo, como destacam Schwarcz e Starling, o republicanismo era restrito a elites, com pouca participação popular.
⚔️ O 15 de novembro de 1889
O evento que marcou a queda do Império foi relativamente rápido e com pouca mobilização popular.
Na manhã de 15 de novembro:
-
Tropas lideradas por Deodoro da Fonseca ocuparam pontos estratégicos do Rio de Janeiro
-
O gabinete imperial foi deposto
-
À tarde, proclamou-se a República
Pouco depois, a família imperial foi exilada, encerrando o regime monárquico iniciado em 1822.
📌 Um ponto essencial (muito destacado em Brasil: Uma Biografia):
A população assistiu ao processo “bestializada”, sem compreender plenamente o que estava acontecendo — expressão clássica do historiador Aristides Lobo.
🏛️ Natureza da Proclamação
A historiografia atual interpreta a Proclamação como:
✔ Um movimento de elite
Não houve revolução popular. Foi conduzida por militares e civis das camadas dominantes.
✔ Um golpe político-militar
A mudança de regime ocorreu sem consulta popular e sem participação democrática.
✔ Um rearranjo de poder
Segundo Schwarcz e Starling, a República não rompeu com as desigualdades estruturais herdadas do Império — especialmente:
-
Exclusão política
-
Concentração de terras
-
Racismo estrutural pós-abolição